segunda-feira, 10 de agosto de 2009

do vinho (ou vinagre) para a água

em julho meu gato amarelo saiu para seu passeio diário de 15 minutos pelos telhados do quarteirão e não voltou mais.

peregrinando pela redondeza, colando cartazes, conversei com as pessoas. claro que encontrei aqueles típicos zumbis (sorriso caloroso e "oi, perdi este gatinho, será que vc o viu no seu quintal?" versus olhar de peixe morto e "não") mas encontrei mulheres (e sim, um punhado de homens) que me ofereceram goles de simpatia, esperança ou consolo.

uma situação foi especialmente surpreendente. ao lado da minha casa, há um conjunto de três desocupadas, à venda. desesperada e contra a minha vontade, liguei para a imobiliária, expliquei a situação. deram o telefone da corretora da área. liguei, esperando todo tipo de desumanidade. uma hora depois ela apareceu correndo, de salto, abriu a casa, me deixou chafurdar em todos os cantos e depois saiu tão correndo quanto chegou, explicando diante do meu profuso agradecimento - 'eu sei como é, minha prima tem 8 gatos!'

descobri que há muitas gateiras escondidas atrás dos muros do meu bairro. só no meu quarteirão, contei quatro. gente empática, achei muito mais do que isso. e de repente entendi! não é necessário falar sobre nada muito filosófico nem de importância mundial. o assunto pode ser o seu erro crasso de ter deixado seu gato sair, ou um ponto de crochê que vc não consegue fazer. o coração das pessoas pode estar muito mais à mão do que se imagina, mas está sempre no olho-no-olho.

então saio do vinagre e fico temporariamente inodora, incolor e insípida. fecho o post com essa graça de desenho retirado daqui, que bem poderia ser o retrato da criatura amarela e calorosa que dormia no meu travesseiro e cuja falta só consigo descrever como um castigo terrível para a minha negligência.amo muito você, marrom.

sábado, 4 de julho de 2009

um feitiço que não pegou

este é um feitiço de 2002 chamado corredeira mas tbm podia se chamar ciranda.

vem
meu sangue me lava
do passado, das mágoas
e sobra limpinho
pra nós o amor
a pedra rolada
o amor diamante
lavado brilhante
amor

vem
que eu te lavo
batizo inicio
te limpo está pronto
servido na mesa
em taças de ouro
pra dois ambrosia
da fonte perene
amor

vem
de mala e cuia
brincar de casinha
convido pro pulo
convido pra festa
celeste marinha
em todo universo
no meio do salto
olhar um pro outro
sentido certeza
sem pé nem cabeça
amor

vem
que eu te amo
perfeito presente
te dou você mesmo
sorriso verdade
em todas as cores
vem seja comigo
na rima redonda
amor com seis pontas
amor

vem

de:mira
para:ricardo

um bicho na nova era


estou recapitulando um relacionamento de sete anos atrás, com um trainee de iluminado. minha recapitulação não segue linha alguma.

o problema da iluminação é a direção. não estamos falando mais de progresso, ciência ou tenologia, mas continuamos achando que o certo é 'para o alto e avante'. muda e fica tudo igual. ninguém quer ascender pra dentro ou pra baixo. e não se percebe que isso é masculino.

num trecho do livro 'sonhos lúcidos', da florinda donner, um homem é desenhado com um cone sobre a cabeça, com a ponta para cima, e a mulher é desenhada com o cone para baixo, e isso exemplifica como se apropriam de conhecimento sobre/ percebem o sagrado.

pro homem o sagrado está pra cima. talvez porque ele precise ignorar de todas as formas o fato de que, no corpo, na essência masculina, está o que o escraviza e puxa à involução. (diante do receio de uma das aprendizes acerca de uma possível investida sexual de juan matus, ele é definido como um ser impecável, que superou sua masculinidade, o que será que isso pode significar?). se isso não fosse o que eles sentem, não haveria tanta doutrina para fora do corpo e tanta couraça em torno dele. pra entender melhor é só pegar todos os discursos sobre pecado e corpo dirigido à mulher, e apontar pro homem. aí está o que pensam sobre eles mesmos, transferido e reprimido muito bem durante milênios.

e isso em si não é bom ou ruim. é apenas o ponto de vista deles.

os métodos espirituais masculinos são caminhos específicos masculinos, e não genéricos. não se aplicam a nós. um exemplo: pegue o conceito de que a mente tem que ser combatida e silenciada. temos inúmeros métodos de meditação e silêncio forçado da mente, passando pela alucinação induzida com psicotrópicos. a mente não é o centro, mas por causa da idéia de que o conhecimento do sagrado está pra cima, os homens partem desse ponto e dão a ela muita atenção, seja pela exaltação ou pela anulação do racional.

sem perceber que um uso realmente inteligente da razão poderia esclarecer toda a esbórnia.

a maioria dos homens não pode conceber um centro que esteja 'mais abaixo' da mente, mas as mulheres não têm nenhum problema com isso. assim, uma mulher não precisa inutilizar um bom instrumento, porque ele não está no caminho para seu centro. na mulher, a mente equivale a uma colher ou uma faca. não atrapalha seu trabalho.

experienciar que estamos todos dentro de um jogo, com vários programinhas rodando ao mesmo tempo, e que não somos esses programas - tem a ver com sentir no corpo. "intentar significa que você obtém um conhecimento inquestionavelmente corporal de que é um sonhador. Você sente que é um sonhador com todas as células do corpo." , já disse d. juan. isso é algo que uma mulher pode fazer sem passar pela aniquilação de qualquer outra coisa.

nós temos outros caminhos. imitar o caminho do macho não é a melhor opção, se pretendo chegar a um sagrado que não seja macho. e isso é um tabu pra muita gente, que supõe que o sagrado seja algo unissex e que a partir de certo 'nível' conceitos como macho e fêmea sejam 'categorizações inferiores'. eu não sei. estou cozinhando o assunto igual bruxa velha na frente do caldeirão. porque é inverno.

imagem: abominable, do mark ryden.

o xis da questão


durante um bom tempo eu pensei no humano masculino como um ser em que as mutações humanizantes não pegavam direito, por causa da testosterona, que os pressionava sempre ao comportamento chimpanzé que possui hierarquias, dominação, violência, rituais e tal.

na minha imaginação a mulher tinha sido melhor sucedida em adaptar-se às informações humanizantes e que a 'culpa' da dificuldade masculina era essencialmente pressão da 'involutiva' testosterona. e que o fato do comportamento troglodyte estar sempre ganhando da humanização era apenas um azar para as mulheres e para a evolução coletiva da humanidade.

aí tem o nagualismo que fala abertamente de uma espécie alienígena que implantou com sucesso uma instalação muito específica no humano - a mente. e fala disso como algo escravizante e redutor das nossas verdadeiras naturezas, não como algo benéfico. e fala disso como algo que fez com que os homens se afinizassem mais com os predadores e as mulheres passassem à base da 'cadeia alimentar ' mulher>homem>predador.

isso por si só explica um bilhão de coisas. e ainda dá pra fazer umas colagens.

na cosmogênese de acordo com a amasofia (com a qual entrei em contato por causa da agenda aquariana) tem duas passagens que também falam de implantações alienígenas. uma delas é frai-ki, um implante genético que dava aos povos que o portavam, uma característica guerreira, dominadora e hierárquica. nas palavras da amasofia - "agressiva, escravagista, belicista e expansionista". a retirada ou não desse implante esteve no cerne de todas as guerras universais e os povos implantados que não queriam ser 'descontaminados' - ou seja, queriam permanecer com a frai-ki ativada - estiveram entre os que nos criaram.

a outra passagem fala de kaa, a interpretação amasófica da 'costela' de adão - outro trecho genético que foi retirado do adão (=primeiro protótipo de homem) para que pudessem ser replicadas as novas fêmeas da espécie. atenção à sutileza: a mulher não foi feita a partir do pedaço = costela retirada; e sim do que sobrou, da ausência da costela (e eu pergunto, será que não veio daí a atávica idéia de que à mulher 'falta' alguma coisa, heim?!).

em termos bem neutros: parece que é preciso informações 'a mais' pra fazer o masculino. o masculino seria uma especialização. isso fica muito claro se olhamos o desenvolvimento do feto humano. e esse algo a mais, presente nos homens, os aproxima do criador/predador. 'feito à sua imagem e semelhança.'

depois dessas viagens já não sei se o que pega pros homens é herança chimp ou - num trocadilho tosco - chip. isso é assunto deles. assunto meu é perceber que 'masculino e feminino serem categorizações inferiores ao espírito elevado' é conversa pra boizinhos continuarem dormindo. porque perpetuar um humano genérico é, já que estamos encarnados, perpetuar a invisibilidade da mulher e não apenas isso - é continuar escondendo debaixo do tapete que os primeiros problemas sociais que precisamos faxinar são problemas relacionados à divinização distorcida do macho. não é conveniente que de repente, bem na hora em que esses camaradas devam ser desentronizados, falar de macho e fêmea passe a ser algo 'atrasado'?

longe de mim demonizar os homens (embora eles tenham feito isso conosco por tempo demais). eu tenho dois aqui em casa e quero viver bem com eles e com todos os outros, mas sem macaquear seus erros clássicos. tudo que estou dizendo é que nós mulheres somos outra coisa, mesmo que ligeiramente, e isso - mas que surpresa, não é? - pode ser muito melhor do que estavam nos ensinando.

(crédito da imagem: fur girl, do mark ryden)

bússola...

pra quem gosta de talismãs rúnicos, encontrei este site com desenhos super lindos, estilizados.

gosto particularmente do vegvisir, que é uma espécie de rosa dos ventos islandesa e tem surtido efeitos bem interessantes desde que coloquei-o no meu altar. estou pensando seriamente em tatua-lo no pulso... afinal, se eu colocasse nas costas, ia ficar parecendo coisa de anjo vingador hehehe!

não tenho nenhuma identificação com aqueles talismãs cabalisticos ou quadrados mágicos tipo eliphas levi. aliás, tenho um pavor gigante por magia cerimonial e alta magia. nunca fui amiga de insigils, mas o vegvisir é outra história. chamado também de runic compass, ele tem a atribuição literal de 'não deixar que a pessoa se perca'. isso é fantástico, em se tratando de alguém meio desenraizado como eu, que regularmente se esquece de quem é e pra onde estava indo...

possivelmente por causa de minha afinidade sólida com frigg e da minha insistência sem pé nem cabeça em atentar à roda do ano nórdica, o vegvisir 'pegou'. é bem gostoso ver um pouco de mágica. só tenho a agradecer à rainha.

... e espelho


em junho fui a um daqueles programas que deprimem todos os defensores da causa animal: zoológico.

o marido precisava de créditos na faculdade e o filho queria ir. eu quis bancar a mamãe normal e paguei um preço alto, pois 10 dias depois ainda estava passando mal. esse tipo de lugar tem um impacto terrível no meu espírito. pior que isso, só circo.

não posso falar nada contra o zoológico daqui de sp, pois deu pra ver que os animais estão muito bem tratados e há programas educacionais interessantes, interativos e sintonizados com o público. de maneira paradoxal, estar encarceirado, para aqueles indivíduos, significa estar protegido... gostei de ver os ursos de óculos, gordinhos e claramente felizes. fiquei apaixonada por um gran kudun que - juro! - me achou no meio da multidão. mas quem realmente me impressionou foi a dama harpia.

a harpia tem uma presença forte, com seus quase dois metros de uma ponta de asa à outra e sua plumagem de extremo bom gosto. pra quem está pensando num urubuzão branco, esqueça!! ela é muito maior! e tem tudo a ver com sua homônima mitológica, representada por uma fêmea humana com cabeça e garras de pássaro. ambas 'arrebatam' de forma implacável. na natureza, a harpia consegue arrancar uma preguiça de uma árvore, um macaco ou outros animais desse porte, e como outros rapinantes, possui uma visão impecável e exata. não há desperdício e ninguém a quem temer acima dela, na cadeia alimentar. que coisa lindíssima, essa harpia.

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não é engraçada essa visão de hierarquia alimentar? organizar seres vivos em termos de 'quem come quem' só podia ser coisa de homem mesmo, socorro! para mim o que existe são seres inter-relacionados em agrupamentos mais ou menos independentes, ou nichos, não uma longa e única 'pirâmide social' que determina a importância ou a soberania de um sobre outros. isso é patético e irreal.

é óbvio que a harpia ou o leão não se julgam melhores que os animais dos quais se alimentam. o fato de come-los não quer dizer que sejam mais espertos ou mais perfeitos. só os humanos pensam por esses termos, encadeando todos os seres a partir de uma categorização pobre dessas, pois só para nós tudo tem a ver com conquistar e dominar, para muito além da necessidade ou sobrevivência. algumas coisas a respeito dessa leitura de mundo andam muito mal, como já denunciaram o aquecimento global, o extermínio de animais em massa, o empobrecimento da terra e o próprio emburrecimento humano.

esta dama me ensinou que ser predador não é sinônimo automático de ser cretino ou escravagista. quando eu crescer, quero ser harpia.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

manifesto madrepérola

este é o manifesto madrepérola.

1. nós nos comprometemos a atuar em rede e em favor de todas as mulheres, evitando criticar de forma depreciativa qualquer uma de nossas irmãs, evitando deslegitimar suas posturas, momentos de vida e opiniões, e ao invés disso, oferecendo bases de identificação, compreensão e abertura ao diálogo mesmo quando não concordamos com elas;

2. nós nos comprometemos a apoiar de forma pessoal, emocional, moral ou qualquer outro tipo possível, mulheres passando pro processos de gravidez, parto, puerpério, amamentação e criação de filhos, compreendendo a tarefa de acolher e nos responsabilizar de forma coletiva por nossas crianças como um todo;


3. nós nos comprometemos a trocar com outras mulheres, nossos conhecimentos de qualquer espécie, nosso tempo, o produto de nossos ofícios, objetos e serviços sem o uso de moeda corrente;

4. nós nos comprometemos a debater em profundidade todos os assuntos de interesse da mulher, sejam de ordem privada ou pública, preservando o respeito e a legitimidade de todas as vozes femininas em seus discursos;


5. nós nos comprometemos a buscar visões mais femininas acerca de nossos próprios corpos, acerca da imagem de nossos corpos na sociedade e na mídia, e acerca de processos físicos particulares como menstruação, gravidez, amamentação e menopausa, visando acima de tudo diminuir a patologização e a homogenização desses processos e promover o conforto da mulher em seu corpo;


6. nós nos comprometemos a buscar soluções de saúde e de cura, para nós e o planeta, que ao mesmo tempo resgatem conhecimentos antigos privilegiando os transmitidos por outras mulheres e inovem de forma holística superando a visão fragmentada e mecanicista de saúde e bem-estar;


7. nós nos comprometemos com o momento atual da terra e com a busca de soluções cooperativas, relacionais, amorosas e de cuidado, abandonando os comportamentos exploratórios e depredatórios da sociedade atual;


8. nós nos comprometemos com as plantas, animais e toda a vida na terra, com a proteção de espécies e habitats naturais, com a proteção da água e com um crescente senso de respeito em relação à soberania e direito à existência de todas as formas de vida;


9. nós nos comprometemos com nossos filhos e filhas, rompendo com a transmissão fácil dos paradigmas vigentes e com a terceirização de nossas crianças, contando para isso com uma rede de suporte educativo entre todas as mulheres interessadas;


10. nós nos comprometemos com o desmantelamento de tudo o que é nocivo na sociedade em que vivemos, e com a criação e suporte a todo tipo de redes paralelas que valorizem uma existência sem consumismo, competição ou comportamentos predatórios;


11. nós nos comprometemos com a acolhida -especialmente mental e emocional- de outras participantes do manifesto, independente de diferenças individuais e do ponto em que estejam no processo de retorno ao feminino;


12. nós nos comprometemos com a queda de estereótipos sobre o feminino, superação de falsas dicotomias (positivo-negativo, natureza-cultura, sexual-espiritual entre outras) que localizam o feminino em oposição ao que simboliza o bom, desejável ou normal.



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como mulheres e mães, nós passamos muito tempo alimentando e dando suporte ao que nem sempre corresponde às nossas escolhas, preferências, crenças ou anseios. em nosso cotidiano uma grande parte de nossa personalidade fica à parte, sem ser apreciada por nós mesmas ou outras pessoas. o madrepérola surge como um espaço onde tudo isso ficará de fora; quer ser um local de encontro para mulheres de qualquer orientação religiosa, filosófica ou sexual, interessadas em fortalecerem laços de amizade e apoio.

o madrepérola está idealizado como um ambiente livre de competitividade, agressividade e individualidade que são tão preciosas ao mundo do trabalho e das relações atuais, mas que dilapidam a mulher em seu íntimo e já se mostraram nocivas enquanto método de lidar com vidas e com o planeta. o nosso grande objetivo é promover a interação simples e cooperativa entre mulheres, enquanto partilham seus interesses e dialogam sem combatividade.

as regras de convivência do madrepérola se pautam essencialmente em respeito ao sagrado feminino, legitimidade de todas as suas vozes e vontade de fazer coisas juntas, não umas contra as outras. dessa forma queremos valorizar e multiplicar as formas de aproximação entre as mulheres, desenvolvendo não uma irmandade calcada em regras e dogmas onde todas pensam e fazem igual, mas em uma multiplicidade de contatos válidos que depende das possibilidades de cada uma das participantes e sempre visa transpor o virtual, trazendo experiências que podem ser tão simples como um chá ou um passeio compartilhado com uma nova amiga.

ao se identificar com os compromissos do manifesto, mesmo que apenas alguns deles, qualquer mulher já se coloca como viajante do caminho de retorno ao sagrado feminino e está, por isso, automaticamente convidada a integrar o chat de reuniões do grupo. estamos convidando você não apenas a ser signatária de mais um documento de intenções, mas a participar mesmo que de forma muito simples, de uma ação que quer efetivamente unir mulheres.

quem tiver interesse em participar das reuniões virtuais, por favor deixe seu endereço de mail aqui nos comentários ou envie para celiasaugo@yahoo.com.br, pois o ingresso ao chat (gratuito!) é por meio de convite.


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madrepérola. beleza e valor para nós mesmas. não para os porcos.